Como Fela Kuti criou o ritmo que dominou o Spotify em 2026
Antes de Burna Boy e Rema, veio Fela Kuti. Nos anos 70, ele misturou jazz, funk e tambor iorubá e criou o afrobeat. Preso 200 vezes pela ditadura, morreu em 1997. Mas seu beat virou o mais ouvido do mundo em 2026.
Fela Anikulapo Kuti nasceu em 1938. Estudou música em Londres, voltou pra Lagos e criou o Shrine, casa de show que era igreja, partido e quilombo. Lá, ele inventou o afrobeat: 15 minutos de música, com sopro, percussão e letra política. “Música é a arma”, dizia. Gravou 50 álbuns. Cantou contra corrupção, ditadura e Shell. Foi preso 200 vezes. Apanhou até a mãe, ativista, ser jogada da janela e morrer.
*De Lagos pro topo*
Fela morreu em 1997, de AIDS. Mas o filho Femi Kuti e o neto Made Kuti mantiveram o Shrine e o beat. Nos anos 2000, o “afrobeats”, com S, nasceu: versão pop do afrobeat, pra rádio. Burna Boy ganhou Grammy em 2021. Rema tem 2 bilhões de plays com “Calm Down”. Em 2026, afrobeats foi o ritmo mais ouvido do Spotify no mundo, passando reggaeton.
*A batida que colonizou*
O Spotify criou a playlist “African Heat” só pra dar conta. No Brasil, o funk sampleia afrobeats desde 2023. “O Atlântico nunca separou o som. Só deu delay de 400 anos”, diz o DJ Mário Caldato. O Shrine virou ponto turístico. Beyoncé gravou lá. Paul McCartney também. “Fela é o Bob Marley da África. Mas sem marketing”, diz o produtor Ed Motta.
Fela não teve Grammy. Teve porrada. Não teve bilhões. Teve cadeia. Mas teve razão. “Ele cantava ‘Zombie’ pra soldado que obedecia ordem sem pensar. Hoje a gente dança ‘Zombie’ na balada sem saber”, diz a filha Yeni Kuti. A África não exporta só corpo e minério. Exporta batida. E essa batida, que nasceu pra derrubar ditador, hoje derruba chart. É a vingança mais doce: do porão do navio pro topo do Spotify.




